No mesmo lugar, à mesma hora, da mesma forma, o homem estava sentado ao fundo das escadas do metro. Sob o seu olhar as pessoas que passam deviam parece-lhe todas iguais, como vultos que o desprezam – pensei. Sob aquele dia com cor de noite e chuva com força de mar, o homem estendia a mão em forma de concha. Mas não era uma concha; estava suja e com marcas de vida vivida, sofrida.
No mesmo lugar, à mesma hora, da mesma forma, passei por um homem que estava sentado ao fundo das escadas do metro. Olhei, pensei e nada fiz. Olhei com medo de ver personificações de tristeza – sou apenas mais uma entre tantos cobardes. Pensei, mas pensar é vago. Nada fiz, e tornei-me num vulto que passou.
Noutro lugar, a outra hora, de forma diferente, o mesmo homem andava no seio lisboeta fumando um cigarro – o boémio. As mãos não tremiam e era agora a personificação de uma tristeza diferente: a do espírito.
Senti raiva? Não, senti culpa.
No final do dia, somos todos vultos que passam e não olham para quem está só no fundo das escadas. No final do dia, acabamos todos no fundo das escadas a ver os vultos que passam e nos ignoram. No final do dia, pensamos que somos os únicos que que se encontram sós no covil kafkiano que nos absorve e enloquece.
ResponderEliminarÉ uma ilusão.
Tomemos o globo, um país ou uma cidade pelas partes simbolicamente descritas - lugares ao fundo de escadas de estações do metro e outros bem no seio de quaisquer Lisboas - onde todos são vultos "cegos" e desinteressados e uns quantos são pedintes, não importando por que necessidade. É ao Estado que cabe garantir, a vultos e pedintes, as condições básicas de sobrevivência. Mas o Estado somos todos nós. Portanto, de quem é a culpa?
ResponderEliminarCulpa? Porquê? Pobreza de espírito? Quem? No devido espaço e no devido tempo, não somos mais do que pequenas peças que fazem parte integrante de um grande puzzle.
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