Preciso de um motivo. Não de um passageiro que o vento leve, mas um daqueles que dure e tenha força. Quero ter confiança suficiente para saber lidar com ele, domá-lo sem arrependimentos. Quem se arrepende é porque muito deseja e quem deseja tem um motivo. Mas, vistas bem todas estas coisas eu não me encaixo nesta teoria. Eu desejo ter um motivo para desejar algo. Curiosa situação a minha. Ainda assim, se desejo um motivo para desejar um sonho distante é porque desejo imenso esse sonho. Ou seja, desejo mais do que o comum. Estou certo? A falta de um motivo deixa-me ansioso, nervoso, doente, maluco. Todos os que olho em meu redor têm os seus, muitos deles têm até mais do que um. Dos mais simples aos mais ousados, é vasta a lista de motivos que nos pode mover. São o nosso alimento, o combustível, a energia. Poderia ter inveja de um motivo exorbitante, mas até os mais fúteis me chamam pela atenção, visto que não tenho nenhum. No fundo, sou um homem de sorte. Antes não ter nenhum, que ser movido por dinheiro ou pela tristeza dos outros. Como se arranjará um motivo? A minha infantilidade poderia levar-me a escolher um, por mero acaso, e fingir para a eternidade que este me movia. Depois iria exibir-me por aí: “Vejam como sou um homem decidido, com ideias fixas e um caminho”. Mas enfim, nada na vida deve ser escolhido por via da força. Deixemos tudo ser tão natural quanto a própria vida e eu esperarei que o meu motivo apareça. Ele vai dar-me a solidez que preciso, segurança para não cair na demência. Se a espera começar a apertar, terei que tomar outro rumo. Farei tudo sem um motivo, esperando apenas pelos resultados dos meus actos, venham eles doces ou amargos. Serei um vagabundo sem alma e ninguém chegará perto do meu entendimento. Não terei lógica. Pode ser que descubra felicidade na minha irracionalidade. Nunca descobrirei se não experimentar.
A vida, com toda a sua naturalidade, vai-nos dizendo que motivos (se os houver) nos movem; dê-nos ela capacidades para isso. Beijito
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